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Wiki Acampamento Meio-Sangue

Eu jogo pinochle com um cavalo

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Tive sonhos estranhos, cheios de animais de estábulos. A maioria queria me matar. O restante queria comida. Devo ter acordado várias vezes, mas o que ouvi e vi não fazia sentido, então adormecia de novo. Lembro-me de estar deitado em uma cama macia, sendo alimentado com colheradas de alguma coisa que tinha gosto de pipoca com manteiga, só que era pudim.

A menina com o cabelo loiro encaracolado pairava acima de mim com um sorriso afetado enquanto limpava as gotas de meu queixo com a colher.

Quando ela viu meus olhos abertos, perguntou:

– O que vai acontecer no solstício de verão?

Eu consegui resmungar:

– O quê?

Ela olhou em volta, como se estivesse com medo de que alguém ouvisse.

– O que está acontecendo? O que foi roubado? Nós só temos algumas semanas!

– Desculpe – murmurei. – Eu não...

Alguém bateu à porta, e a menina rapidamente encheu minha boca de pudim.

Quando acordei novamente, a menina tinha ido embora.

Um sujeito loiro e forte, como um surfista, estava no canto do quarto me vigiando.

Tinha olhos azuis – pelo menos uma dúzia deles – nas bochechas, na testa, nas costas das mãos.



Quando finalmente voltei a mim de vez, não havia nada de estranho com o lugar ao meu redor, a não ser que era mais agradável do que eu estava acostumado. Estava sentado numa espreguiçadeira em uma enorme varanda, olhando ao longo de uma campina para colinas verdejantes à distância. A brisa tinha cheiro de morangos. Havia uma manta sobre as minhas pernas, um travesseiro atrás do pescoço. Tudo isso era ótimo, mas minha boca me dava a sensação de ter sido usada como ninho por um escorpião. A língua estava seca e pegajosa, e todos os dentes doíam. Sobre a mesa ao lado havia bebida num copo alto. Parecia suco de maçã gelado, com um canudinho verde e um

guarda-chuva de papel enfiado em uma cereja. Minha mão estava tão fraca que quase derrubei o copo quando passei os dedos em volta dele.

– Cuidado – disse uma voz familiar.

Grover estava apoiado no gradil da varanda, e parecia não dormir havia uma semana.

Embaixo de um braço, segurava uma caixa de sapatos. Estava usando jeans, tênis de cano alto Converse e uma camiseta laranja-claro com os dizeres ACAMPAMENTO MEIO-SANGUE. Apenas o velho Grover. Não menino-bode.

Quem sabe não tive um pesadelo? Talvez minha mãe estivesse bem. Ainda estávamos de férias e tínhamos parado ali naquela grande casa por alguma razão. E...

– Você salvou minha vida – disse Grover. – Eu... bem, o mínimo que eu podia fazer... voltei na colina. Achei que você poderia querer isso.

Reverentemente, ele colocou a caixa de sapatos em meu colo.

Dentro havia um chifre de touro branco-e-preto, a base irregular por ter sido quebrada, a ponta salpicada de sangue seco. Não tinha sido um pesadelo.

– O Minotauro – disse eu.

– Ahn, Percy, não é uma boa idéia...

– É assim que o chamam nos mitos gregos, não é? – perguntei. – O Minotauro. Meio homem, meio touro.

Grover mudou de posição, pouco à vontade.

– Você ficou desacordado por dois dias. Do que se lembra?

– Minha mãe. Ela está mesmo...

Ele abaixou os olhos.

Olhei ao longo da campina. Havia pequenos bosques, um riacho sinuoso, campos de morangos espalhados embaixo do céu azul. O vale era cercado por colinas ondulantes, e a mais alta, bem na nossa frente, era a que tinha o grande pinheiro no topo. Mesmo isso parecia bonito à luz do sol.

Minha mãe se fora. O mundo inteiro deveria estar escuro e frio. Nada devia parecer bonito.

– Desculpe – fungou Grover. – Eu sou um fracasso. Eu... sou o pior sátiro do mundo.

Ele gemeu, batendo o pé com tanta força que ele saiu, quer dizer, o tênis Converse saiu. Dentro, estava recheado de isopor, a não ser por um buraco em forma de casco.

– Oh, Styx! – murmurou ele.

Um trovão ecoou no céu claro.

Enquanto ele lutava para pôr o casco de volta no falso pé, pensei: Bem, isso resolve as coisas.

Grover era um sátiro. Podia apostar que, s raspasse o cabelo castanho cacheado, encontraria pequenos chifres em sua cabeça.

Mas eu me sentia infeliz demais para me importar com a existência de sátiros ou mesmo minotauros. O importante era que minha mãe realmente tinha sido espremida para o nada, dissolvida em luz amarela.

Eu estava sozinho. Um órfão. E teria de viver com... Gabe Cheiroso? Não. Isso jamais iria acontecer. Preferia viver nas ruas. Fingiria ter dezessete anos e me alistaria no exército. Faria alguma coisa.

Grover ainda estava fungando. O pobre garoto – pobre bode, ou sátiro, ou o que for – parecia estar esperando levar um murro.

– Não foi sua culpa – disse eu.

– Foi, sim. Eu devia protegê-lo.

– Minha mãe pediu para você me proteger?

– Não. Mas é isso que faço. Sou um guardião. Pelo menos... eu era.

– Mas por que...

De repente senti uma vertigem, minha visão rodando.

– Não se esforce demais – disse Grover. – Aqui.

Ele me ajudou a segurar o copo e eu levei o canudinho aos lábios.

Recuei com o gosto, porque estava esperando suco de maçã. Não tinha nada a ver com isso. Era gosto de biscoito com pedacinhos de chocolate. Biscoito líquido. E não qualquer biscoito – os biscoitos azuis da minha mãe com pedacinhos de chocolate, amanteigados e quentes, o chocolate ainda derretendo. Ao beber aquilo, meu corpo inteiro se sentiu bem, aquecido e cheio de energia. Minha tristeza não foi embora, mas era como se minha mãe tivesse acabado de acariciar minha bochecha e me dar um biscoito, como costumava fazer quando eu era pequeno, e tivesse dito que tudo ia ficar bem.

Antes de me dar conta, já tinha esvaziado o copo inteiro. Olhei para dentro dele e, com certeza, não era uma bebida quente, pois os cubos de gelo não tinham nem derretido.

– Estava bom? – perguntou Grover.

Fiz que sim com a cabeça.

– Que gosto tinha?

Ele pareceu tão suplicante que me senti culpado.

– Desculpe. Devia ter deixado você provar.

Os olhos deles se arregalaram.

– Não! Não foi isso que eu quis dizer. Eu só... fiquei curioso.

– Biscoitos com pedacinhos de chocolate – disse eu. – Os da minha mãe. Feitos em casa.

Ele suspirou.

– E como se sente?

– Como se fosse capaz de jogar Nancy Bobofit a cem metros de distancia.

– Isso é bom – disse ele. – Isso é bom. Não acho que você deva se arriscar a tomar mais disso aí.

– O que quer dizer?

Ele pegou meu copo com cautela, como se fosse dinamite, e o colocou de volta na mesa.

– Vamos. Quíron e o Sr. D estão esperando.



A varanda circundava toda a casa da fazenda.

Senti as pernas trêmulas tentando andar toda aquela distância. Grover se ofereceu para carregar o chifre do Minotauro, mas eu me agarrei a ele. Tinha pago um preço alto por aquele suvenir. Não iria largá-lo.

Quando demos a volta até o lado oposto da casa, parei para recuperar o fôlego.

Devíamos estar na costa norte de Long Island, porque daquele lado da casa o vale seguia até a água, que cintilava a cerca de um quilômetro de distancia. Entre a casa e lá, eu simplesmente não consegui processar tudo o que estava vendo. A paisagem era pontilhada de construções que lembravam a arquitetura grega antiga – um pavilhão a céu aberto, um anfiteatro, uma arena circular – só que pareciam novos em folha, as colunas de mármore branco reluzindo ao sol. Em uma quadra de areia próxima, uma dúzia de crianças e sátiros jogavam voleibol. Canoas deslizavam por um pequeno lago.

Crianças de camiseta laranja-clara como a de Grover acorriam umas atrás das outras em volta de um grupamento de chalés no meio do bosque. Algumas praticavam arco e flecha em alvos. Outras montavam cavalos em uma trilha arborizada e, a não ser que eu estivesse tendo alucinações, alguns cavalos tinham asas.

Na extremidade da varanda, dois homens estavam sentados frente a frente em uma mesa de carteado. A menina de cabelos loiros que me alimentara com colheradas de pudim com sabor de pipoca estava apoiada no gradil da varanda, ao lado deles.

O homem de frente para mim era pequeno, mas gorducho. Tinha nariz vermelho, grandes olhos chorosos e cabelo cacheado tão preto que era quase roxo. Parecia uma daquelas pinturas de anjos-bebês, como se chamam mesmo... surubins? Não, querubins. É isso. Ele parecia um querubim que chegou a meia idade em um acampamento de trailers. Usava uma camisa havaiana com estampa de tigres e teria se encaixado perfeitamente em uma das rodas de pôquer de Gabe, só que eu tive a sensação de que esse cara poderia ter ganhado até do meu padrasto.

– Aquele é o Sr. D – murmurou Grover para mim. – Ele é o diretor do acampamento. Seja educado. A menina é Annabeth Chase. Ela é só uma campista, mas está aqui há mais tempo que quase todo mundo. E você já conhece Quíron...

Ele apontou para o cara que estava de costas para mim.

Primeiro, percebi que ele estava sentado em uma cadeira de rodas. Depois reconheci o casaco de tweed, o cabelo castanho ralo, a barba desalinhada.

– Sr. Brunner! – exclamei.

O professor de latim voltou-se e sorriu para mim. Os olhos estavam com aquele brilho travesso de quando ele fazia uma prova-surpresa e todas as respostas da múltipla escolha eram B.

– Ah, bom, Percy – disse ele. – Agora já temos quatro para o pinochle.

Ele me ofereceu uma cadeira à direita do Sr. D, que olhou para mim com olhos injetados e soltou um grande suspiro.

– Ah, suponho que devo dizer isto. Bem-vindo ao Acampamento Meio-Sangue. Pronto. Agora, não espere que eu esteja contente em vê-lo.

– Ahn, obrigado. – Logo me afastei um pouco dele, porque, se havia uma coisa que eu tinha aprendido com Gabe era reconhecer quando um adulto andou tomando umas e outras. Se o Sr. D era abstêmio, eu era um sátiro.

– Annabeth? – o Sr. Brunner chamou a menina loira.

Ela avançou e o Sr. Brunner nos apresentou.

– Esta mocinha cuidou de você até que ficasse bom, Percy. Annabeth, minha querida, por que não vai verificar o beliche de Percy? Vamos instalá-lo no chalé 11 por enquanto.

Annabeth disse:

– Claro, Quíron.

Ela provavelmente tinha a minha idade, talvez fosse uns cinco centímetros mais alta, e tinha a aparência muitíssimo mais atlética.

Com seu bronzeado intenso e o cabelo loiro cacheado, era quase exatamente como eu imaginava uma típica menina da Califórnia, a não ser pelos olhos, que arruinavam essa imagem. Eram surpreendentemente cinzentos, como nuvens de tempestade; bonito, mas também intimidadores, como se ela estivesse analisando o melhor modo de me derrubar em uma luta.

Ela deu uma olhada no chifre de minotauro em minhas mãos, então de novo para mim.

Imaginei que fosse dizer: Você matou um minotauro! Ou Uau, você é tão assustador!

Ou algo do tipo. Em vez disso, ela disse:

– Você baba enquanto dorme!

Depois saiu correndo pelo gramado, os cabelos loiros esvoaçando atrás dela.

– Então – disse, ansioso por mudar de assunto –, o senhor, ahn, trabalha aqui, Sr. Brunner?

– Sr. Brunner não – disse o ex-Sr. Brunner. – Lamento, era pseudônimo. Você pode me chamar de Quíron.

– Combinado. – Totalmente confuso, olhei para o diretor. – E Sr. D... significa alguma coisa?

O Sr. D parou de embaralhar as cartas. Olhou para mim como se eu tivesse acabado de arrotar alto.

– Rapazinho os nomes são coisas poderosas. Você simplesmente não sai por aí os usando sem motivo.

– Ah. Certo. Desculpe.

– Devo dizer, Percy – interrompeu o Quíron-Brunner –, que estou contente em vê-lo com vida. Já faz um bom tempo desde que fiz um atendimento domiciliar a um campista em potencial. Detestaria pensar que tinha perdido meu tempo.

– Atendimento domiciliar?

– O ano que passei na Academia Yancy para instruí-lo. Temos sátiros de prontidão na maioria das escolas, é claro. Mas Grover me alertou assim que o conheceu. Ele sentiu que você era especial, então decidi ir lá. Convenci o outro professor de latim a... ah, tirar uma licença.

Tentei me lembrar do começo do ano escolar. Parecia tanto tempo atrás, mas eu tinha uma vaga lembrança de outro professor de latim na minha primeira semana em Yancy.

Então, sem explicação, ele desapareceu e o Sr. Brunner assumiu a turma.

– Você foi a Yancy só para me ensinar? – perguntei.

Quíron assentiu.

– Honestamente, de inicio eu não tinha muita certeza a seu respeito. Contatamos a sua mãe, informamos que estávamos de olho em você, para o caso de estar pronto para o Acampamento Meio-Sangue. Mas você ainda tinha muito a aprender. Não obstante, chegou aqui vivo, e esse é sempre o primeiro teste.

– Grover – disse o Sr. D com impaciência –, vai jogar ou não?

– Sim, senhor! – Grover tremeu quando se sentou na quarta cadeira, embora eu não soubesse por que ele deveria ter tanto medo de um homenzinho gorducho de camisa havaiana com estampa de tigre.

– Você sabe jogar pinochle? – indagou o Sr. D olhando para mim com desconfiança.

– Infelizmente não – disse eu.

– Infelizmente não, senhor – disse ele.

– Senhor – repeti. Estava gostando cada vez menos do diretor do acampamento.

– Bem – ele me disse –, este é, juntamente com as lutas de gladiadores e o Pac-Man, um dos melhores jogos já inventados pelos seres humanos. Imaginava que todos os jovens civilizados conhecessem as regras.

– Estou certo de que o menino pode aprender – disse Quíron.

– Por favor – disse eu. – o que é este lugar? O que estou fazendo aqui? Sr. Brun... Quíron, por que iria à Academia Yancy só para me ensinar?

O Sr. D bufou.

– Fiz a mesma pergunta.

O diretor do acampamento deu as cartas. Grover se encolhia a cada vez que uma caía na sua pilha.

Quíron sorriu para mim de um modo compreensivo, como costumava fazer na aula de latim, como para me dizer que qualquer que fosse minha nota, eu era seu aluno mais importante. Ele esperava que eu tivesse a resposta certa.

– Percy – disse ele –, sua mãe não lhe contou nada?

– Ela disse... – Lembrei-me dos seus olhos tristes, olhando para o mar. – Ela me contou que tinha medo de me mandar para cá, embora meu pai quisesse que ela fizesse isso. Disse que, uma vez aqui, provavelmente não poderia sair. Queria me manter perto dela.

– Típico – disse o Sr. D – É assim que eles normalmente são mortos. Rapazinho, você vai fazer um lance ou não vai?

– O quê? – perguntei.

Ele explicou, impacientemente, como se faz um lance em pinochle, e eu fiz.

– Lamento, mas há coisas demais a contar – disse Quíron. – Receio que nosso filme de orientação não seja suficiente.

– Filme de orientação? – perguntei.

– Não – concluiu Quíron. – Bem, Percy. Você sabe que seu amigo Grover é um sátiro. Você sabe – ele apontou para o chifre na caixa de sapatos – que você matou o Minotauro. E não é um pequeno feito, rapaz. O que você pode não saber é que grandes forças estão em ação na sua vida. Os deuses – as forças que você chama de deuses gregos – estão muito vivos.

Olhei para os outros em volta da mesa.

Aguardei que alguém gritasse, Não! Mas tudo o que ouvi foi o Sr. D gritando:

– Oh, um casamento real. Truco! Truco! – Ele gargalhou enquanto contava os pontos.

– Sr. D – perguntou Grover timidamente –, se não for comê-la, posso ficar com sua lata de Diet Coke?

– Hein? Ah, está bem.

Grover mordeu um grande pedaço da lata de alumínio vazia e mastigou tristemente.

– Espere – eu disse a Quíron –, está me dizendo que existe algo como Deus.

– Bem, vamos lá – disse Quíron. – Deus – com D maiúsculo, Deus. Isso é outro assunto. Não vamos lidar com o metafísico.

– Metafísico? Mas você estava falando sobre...

– Ah, deuses, no plural, grandes seres que controlam as forças da natureza e os empreendimentos humanos; os deuses imortais do Olimpo. Essa é uma questão menor.

– Menor?

– Sim, muito. Os deuses que discutimos na aula de latim.

– Zeus – disse eu. – Hera. Apolo. Você quer dizer, esses. E, de novo, uma trovoada distante em um dia sem nuvens.

– Rapazinho – disse o Sr. D –, se eu fosse você, seria menos negligente quanto a ficar soltando esses nomes por aí.

– Mas são historias – disse eu. – São... mitos, para explicar os relâmpagos, as estações e tudo mais. Era nisso que as pessoas acreditavam antes de surgir a ciência.

– Ciência! – zombou o Sr. D. – E diga-me, Perseu Jackson – eu me encolhi quando ele disse meu nome verdadeiro, que nunca contara a ninguém –, o que as pessoas pensarão da sua “ciência” daqui a milhares de anos? Humm? Irão chamá-la de baboseiras primitivas. É isso o que irão pensar. Ah, eu adoro os mortais... ele não têm a menor noção de perspectiva. Acham que já chegaram tãããão longe. E chegaram, Quíron? Olhe para esse menino e diga-me.

– Percy – disse Quíron –, você pode escolher entre acreditar ou não, mas o fato é que imortal significa imortal. Pode imaginar isso por um momento, não morrer nunca? Existir, assim como você é, para toda a eternidade?

Eu estava prestes a responder, assim sem pensar, que parecia um negocio muito bom, mas o tom de voz de Quíron me fez hesitar.

– Você quer dizer, quer as pessoas acreditem em você ou não – disse eu.

– Exatamente – concordou Quíron. – Se você fosse um deus, gostaria de ser chamado de mito, de uma velha historia para explicar os relâmpagos? E se eu contasse a você, Perseu Jackson que um dia as pessoas vão chamar você de mito, criado apenas para explicar como menininhos podem sobreviver à perda de suas mães?

Meu coração disparou. Ele estava tentando me deixar zangado por alguma razão, mas eu não ia permitir que o fizesse. Eu disse:

– Eu não gostaria disso. Mas não acredito em deuses.

– Oh, é melhor mesmo – murmurou o Sr. D. – Antes que um deles o incinere.

Grover disse:

– P-por favor, senhor. Ele acaba de perder a mãe. Está em estado de choque.

– Uma sorte, também – resmungou o Sr. D, jogando uma carta. – Ruim mesmo é estar confinado a esse trabalho deprimente, com meninos que nem mesmo têm fé!

Ele acenou e uma taça apareceu sobre a mesa, como se a luz do sol tivesse momentaneamente se encurvado e transformado o ar em vidro. A taça se encheu de vinho tinto.

Meu queixo caiu, mas Quíron mal ergueu os olhos.

– Senhor D – advertiu –, as suas restrições.

O Sr. D olhou para o vinho e fingiu surpresa.

– Ora vejam. – Ele olhou para o céu e gritou: – Velhos hábitos! Desculpe!

Mais trovões.

O Sr. D acenou outra vez e a taça de vinho se transformou em uma nova lata de Diet Coke. Ele suspirou, infeliz, abriu a lata e voltou ao seu jogo de cartas.

Quíron piscou para mim.

– O Sr. D irritou o pai dele tempos atrás, sentiu-se atraído por uma ninfa dos bosques que tinha sido declarada inacessível.

– Uma ninfa dos bosques – repeti, ainda olhando para a Diet Coke como se tivesse vindo do cosmos.

– Sim – confessou o Sr. D. – O pai adora me castigar. Na primeira vez, Proibição. Horrível! Dez anos absolutamente terríveis! Na segunda vez... bem, ela era mesmo linda, não consegui ficar longe... na segunda vez, ele me mandou para cá. Colina Meio-Sangue. Acampamento de verão para moleques como você. “Seja uma influência melhor”, ele me disse. “Trabalhe com os jovens em vez de arrasar com eles.” Ah! Que injustiça.

O Sr. D parecia ter seis anos de idade, como uma criancinha fazendo pirraça.

– E... – gaguejei – o seu pai é...

– Di immotales, Quíron – disse o Sr. D. – Pensei que você tinha ensinado o básico a este menino. Meu pai é Zeus, é claro.

Repassei os nomes começados em D da mitologia grega. Vinho. A pele de um tigre. Os sátiros que pareciam estar todos trabalhando aqui. O modo como Grover se encolhia de medo, como se o Sr. D fosse seu senhor.

– Você é Dionisio – disse eu. – O deus do vinho.

O Sr. D revirou os olhos.

– Como eles dizem hoje em dia, Grover? As crianças dizem, “fala sério”?

– S-sim, Sr. D.

– Então, fala sério, Percy Jackson. Achou o quê; que eu fosse Afrodite?

– Você é um deus.

– Sim, criança.

– Um deus. Você.

Ele se virou para olhar diretamente para mim, e vi uma espécie de fogo arroxeado nos seus olhos, um indício de que aquele homenzinho reclamão e gorducho só estava me mostrando uma minúscula parte de sua verdadeira natureza. Tive visões de vinhas estrangulando descrentes até a morte, guerreiros bêbados insanos com o entusiasmo da batalha, marinheiros gritando enquanto suas mãos se transformavam em nadadeiras, os rostos se alongando em focinhos de golfinho. Eu sabia que, se o pressionasse, o Sr. D iria me mostrar coisas piores. Iria plantar uma doença no meu cérebro que me levaria a usar camisa-de-força pelo resto da vida.

– Gostaria de me testar, criança? – disse em voz baixa.

– Não. Não, senhor.

O fogo diminuiu um pouco. Ele voltou ao jogo de cartas.

– Acho que ganhei.

– Não exatamente Sr. D – disse Quíron. Ele baixou uma sequencia, contou os pontos e disse: – O jogo é meu.

Achei que o Sr. D fosse transformar Quíron em pó em sua cadeira de rodas, mas ele apenas suspirou pelo nariz, como se estivesse acostumado a ser batido pelo professor de latim. Pôs-se de pé, e Grover levantou-se também.

– Estou cansado – disse o Sr. D. – Acho que vou tirar uma soneca antes da cantoria desta noite. Mas primeiro, Grover, precisamos conversar de novo sobre seu desempenho para lá de imperfeito nessa missão.

O rosto de Grover cobriu-se de gotículas de suor.

– S-sim, senhor.

O Sr. D voltou-se para mim.

– Chalé 11, Percy Jackson. E cuidado com seus modos.

Ele se afastou para dentro da casa, com Grover o seguindo arrasado.

– Grover vai ficar bem? – perguntei a Quíron.

Quíron assentiu, embora parecesse um pouco perturbado.

– O velho Dionísio não está realmente zangado. Ele apenas detesta seu trabalho. Ele foi... ahn, confinado à Terra, pode-se dizer, e não pode aguentar ter de esperar mais um século antes de ser autorizado a voltar ao Olimpo.

– O Monte Olimpo – disse eu. – Você está me dizendo que realmente existe um palácio ali?

– Bem, agora há o Monte Olimpo na Grécia. E há o lar dos deuses, o ponto de convergência dos seus poderes, que de fato costumava ser no Monte Olimpo. Ainda é chamado de Monte Olimpo, por respeito às tradições, mas o palácio muda de lugar, Percy, assim como os deuses.

– Você quer dizer que os deuses gregos estão aqui? Tipo... nos Estados Unidos?

– Bem, certamente. Os deuses mudam com o coração do Ocidente.

– O quê?

– Vamos, Percy. O que vocês chamam de “civilização ocidental”. Você acha que é apenas um conceito abstrato? Não, é uma força viva. Uma consciência coletiva que ardeu brilhantemente por milhares de anos. Os deuses são parte dela. Você pode até dizer que eles são sua fonte ou, pelo menos, que estão ligados tão intimamente a ela que possivelmente não vão deixar de existir, a não ser que toda a civilização ocidental seja destruída. A chama começou na Grécia. Então, como você bem sabe... ou espero que saiba, já que foi aprovado no meu curso... o coração da chama se mudou para Roma, e assim fizeram os deuses. Ah, com nomes diferentes, talvez: Júpiter em vez de Zeus, Vênus em vez de Afrodite, e assim por diante; mas as mesmas forças, os mesmos deuses.

– E então eles morreram.

– Morreram? Não. O Ocidente morreu? Os deuses simplesmente se mudaram, para a Alemanha, para a França, para a Espanha, por algum tempo. Aonde quer que a chama brilhasse mais, lá estavam os deuses. Eles passaram vários séculos na Inglaterra. Tudo o que você precisa é olhar para a arquitetura. As pessoas não esquecem os deuses. Em todos os lugares onde reinaram, nos últimos três mil anos, você pode vê-los em pinturas, em estátuas, nos prédios mais importantes. E sim, Percy, é claro que agora eles estão nos Estados Unidos. Olhe para o símbolo do país, a águia de Zeus. Olhe para a estátua de Prometeu no Rockfeller Center, para as fachadas dos edifícios governamentais em Washington. Eu o desafio a encontrar qualquer cidade americana onde os olimpianos não estejam proeminentes expostos em vários locais. Goste ou não – e acredite, uma porção de gente não gostava muito de Roma também –, os Estados Unidos são agora o coração da chama. São a grande potência do Ocidente. E, portanto, o Olimpo é aqui. E nós estamos aqui.

Aquilo tudo foi demais para mim, especialmente o fato de que eu parecia estar incluído no nós de Quíron, como se fizesse parte do mesmo clube.

– Quem é você, Quíron? Quem... quem eu sou?

Quíron sorriu. Ele mudou de posição, como se fosse levantar da cadeira de rodas, mas eu sabia que era impossível. Era paralítico da cintura para baixo.

– Quem é você? – ele ficou pensativo. – Bem, essa é a pergunte que todos queremos ver respondida, não é? Mas, por enquanto, temos de lhe arranjar um beliche no chalé 11. Ali haverá novos amigos para conhecer. E tempo à vontade para as aulas amanhã. Alem disso, haverá guloseimas em volta da fogueira esta noite, e eu simplesmente adoro chocolate.

E então ele se levantou da cadeira de rodas. Mas havia algo de estranho no modo como ele fez isso. A manta caiu de cima das pernas, mas elas não se moveram. A cintura foi ficando mais longa, erguendo-se acima do cinto. De início, pensei que estivesse usando roupas de baixo muito compridas de veludo branco, mas à medida que ele foi se erguendo da cadeira, mais alto que qualquer homem, percebi que a roupa de baixo de veludo não era roupa de baixo; era a parte da frente de um animal, músculos e tendões sob um pelo branco e áspero. E a cadeira de rodas não era uma cadeira. Era algum tipo de recipiente, uma enorme caixa sobre rodas, e devia ser mágica, porque não havia como ela contê-lo inteiro. Uma perna saiu, comprida e com joelho saliente, com um grande casco polido. Depois outra perna dianteira, depois a parte traseira, e depois a caixa ficou vazia, nada além de uma casca de metal com um par de pernas humanas acoplado.

Olhei para o cavalo que acabara de pular da cadeira de rodas: um enorme corcel branco. Mas, onde devia estar o seu pescoço, estava a parte de cima do corpo do meu professor de latim, suavemente enxertada no tronco do cavalo.

– Que alívio – disse o centauro. – Fiquei tanto tempo confinado lá dentro que minhas juntas adormeceram. Agora venha, Percy Jackson. Vamos conhecer os outros campistas.

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